Filadélfia Nature pediu retirada de vegetação nativa em 994
hectares de fazenda de 6,4 mil hectares em Minas; IEF indeferiu o requerimento
em 2024, mas processo foi reaberto após recurso da empresa - Por: Diego Feijó de Abreu Publicado:
15/09/2026 - às 07h26| 8 min de leitura
Uma empresa de Augusto Cury pediu
autorização para retirar vegetação nativa de 994 hectares de Cerrado em
uma fazenda de 6,4 mil hectares no Norte de Minas Gerais. O plano apresentado
ao governo mineiro destinava 500 hectares à agricultura e 494 hectares
à pecuária. As informações foram levantadas pelo Fórum Investiga,
o núcleo de jornalismo investigativo da Fórum.
A área fica na Fazenda Santa Maria da Vereda, em Bonito de
Minas (MG), e o pedido foi apresentado pela Filadélfia Nature Participações e
Empreendimentos Ltda., empresa da qual o escritor e candidato à Presidência da
República pelo Avante é sócio desde 2016.
O Instituto Estadual de Florestas (IEF) indeferiu o
requerimento em outubro de 2024. A Filadélfia Nature recorreu. Em abril de
2025, o governo de Minas publicou o desarquivamento do processo em
razão do recurso administrativo e das manifestações técnica e jurídica
produzidas no caso.
Augusto Cury tem uma relação patrimonial expressiva com a
empresa. Na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral em 2026,
informou R$ 15,6 milhões em participação na Filadélfia Nature e
outros R$ 121,19 milhões em um empréstimo mútuo ligado à companhia.
Juntos, os dois itens chegam a cerca de R$ 136,8
milhões, mais da metade dos R$ 242,28 milhões declarados pelo
presidenciável ao TSE.
Empresa de Augusto Cury pediu supressão de 994 hectares
O pedido consta do processo nº 2100.01.0014168/2024-35,
analisado pelo Instituto Estadual de Florestas.
O parecer identifica a Filadélfia Nature como responsável
pela intervenção ambiental e assinala que a própria empresa é proprietária do
imóvel.
A propriedade é a Fazenda Santa Maria da Vereda,
matrícula nº 20.628, registrada em Januária (MG), com área total de 6.427,4061
hectares.
O requerimento apresentado ao órgão ambiental é explícito:
“Supressão de cobertura vegetal nativa, para uso alternativo
do solo” em 994 hectares.
O plano de utilização divide a área em duas atividades:
500 hectares para agricultura e 494 hectares para
pecuária.
O parecer completo do IEF pode ser consultado aqui.
Parecer do IEF identifica a Filadélfia Nature, a Fazenda
Santa Maria da Vereda e o pedido de intervenção em 994 hectares, sendo 500 para
agricultura e 494 para pecuária | Reprodução/IEF
Projeto previa mais de 9 mil metros cúbicos de lenha
nativa
O impacto previsto no próprio requerimento vai além da
extensão territorial.
Segundo o parecer técnico, a supressão dos 994 hectares
resultaria na produção estimada de 9.054,36 metros cúbicos de lenha de
floresta nativa.
O documento informa que o material teria como destino o uso
interno no imóvel ou empreendimento e/ou a incorporação ao solo.
Esse volume consta como estimativa do projeto apresentado ao
governo de Minas. Não há, nos documentos analisados, comprovação de que a
vegetação tenha sido efetivamente retirada.
Área tem vulnerabilidade natural “muito alta”
O parecer do IEF também registra as características
ambientais da região onde a Filadélfia Nature pretendia realizar a intervenção.
A propriedade está no bioma Cerrado, com
vegetação classificada como Cerrado stricto sensu.
Na análise do órgão ambiental, a área aparece com vulnerabilidade
natural “muito alta” e inserida em região de prioridade
“extrema” para conservação de acordo com o mapa de áreas prioritárias
da Biodiversitas.
O imóvel também está dentro da Área de Proteção
Ambiental Estadual do Rio Pandeiros.
O parecer registra ainda espécies vegetais protegidas e
espécies de fauna enquadradas em categorias de proteção ou ameaça.
A presença em uma Área de Proteção Ambiental não impede
automaticamente atividades econômicas. No caso analisado, porém, a localização
e a dimensão da intervenção alteravam o enquadramento exigido para o
licenciamento.
IEF apontou erro no enquadramento e indeferiu pedido
O requerimento foi formalizado em junho de 2024.
Segundo o próprio parecer, não houve vistoria de
campo naquele procedimento. A análise ocorreu sobre os documentos
apresentados.
Os técnicos concluíram que o empreendimento havia sido
enquadrado sem considerar corretamente um critério locacional de peso 2,
aplicado à supressão de vegetação nativa em área considerada de importância
biológica “extrema” ou “especial”.
Com esse critério, o empreendimento deveria seguir outra
modalidade de licenciamento ambiental e passar pela análise da Unidade Regional
de Regularização Ambiental Norte de Minas.
O controle processual foi além e registrou que, diante das
questões técnicas identificadas, a supressão não poderia ser deferida naquele
processo.
Na conclusão, o IEF opinou pelo indeferimento do
requerimento de supressão de cobertura vegetal nativa nos 994 hectares.
A decisão foi publicada em outubro de 2024.
Filadélfia Nature recorreu e processo foi reaberto
A empresa não encerrou o processo após o indeferimento.
A Filadélfia Nature apresentou recurso
administrativo.
Em 9 de abril de 2025, uma publicação do governo de Minas
registrou o desarquivamento do pedido.
O ato informa que a decisão foi tomada:
“tendo em vista o recurso administrativo impetrado pelo
requerente e as manifestações técnica e jurídica”.
A publicação identifica novamente a Filadélfia Nature, a
Fazenda Santa Maria da Vereda e a supressão de cobertura vegetal nativa
em 994 hectares.
A publicação oficial do desarquivamento pode ser consultada
aqui.
O desarquivamento não equivale a uma autorização para
retirada da vegetação. Ele mostra que, após a negativa inicial, a empresa
recorreu e conseguiu reabrir a tramitação do requerimento.
Nas bases públicas consultadas pela Fórum, não
foi localizada decisão posterior autorizando a supressão dos mesmos 994
hectares.
Cury é sócio da Filadélfia Nature desde 2016
A Filadélfia Nature Participações e Empreendimentos
Ltda. foi aberta em novembro de 2016 e tem capital social declarado
de R$ 18,61 milhões.
Augusto Jorge Cury consta como sócio desde a constituição da
empresa.
Também aparecem no quadro societário Suleima Cabrera
Farhate Cury, Camila Farhate Cury Oliveira, Carolina Farhate Cury e Claudia
Helena Farhate Cury. Claudia figura como sócia-administradora.
O cadastro empresarial inclui entre as atividades da
companhia cultivo de milho, cana-de-açúcar, soja, amendoim e feijão, criação de
bovinos e cultivo de eucalipto e outras espécies madeireiras.
A relação de Cury com a empresa também aparece em sua
declaração eleitoral.
R$ 136,8 milhões do patrimônio declarado estão ligados à
empresa
Augusto Cury declarou patrimônio total de R$
242.281.162,52 à Justiça Eleitoral em 2026.
Entre os bens informados estão R$ 15.607.925 em
quotas da Filadélfia Nature Participações e Empreendimentos Ltda..
O maior item de toda a declaração do candidato é outro ativo
relacionado à companhia: um “Empréstimo Mútuo – Filadélfia Nature
Participações” de R$ 121.190.451,65.
Somados, os dois registros representam aproximadamente R$
136,8 milhões.
É uma relação patrimonial maior, inclusive, que a
participação de R$ 31,5 milhões na Fictor Invest declarada
pelo escritor e já revelada pela Fórum.
Leia também: Credor de R$ 31,5 milhões da Fictor, Augusto Cury investiu
por meio de contratos anulados pela Justiça.
A Filadélfia Nature também reúne integrantes da família do
presidenciável. Camila Cury, filha do escritor, está entre as sócias desde
2018.
Camila já apareceu em outra frente da investigação da Fórum
sobre negócios da família ligados à educação pública. Uma empresa dela e do
marido recebeu contrato de R$ 5,78 milhões da Prefeitura de Itajaí para o
programa Gênios Educacional.
Leia também: Empresa da filha de Augusto Cury foi contratada por R$ 5,7
milhões após Gênios substituir Escola da Inteligência.
Documentos não mostram que os 994 hectares foram
desmatados
O que os documentos do governo de Minas comprovam é que
a empresa de Augusto Cury pediu autorização para suprimir
vegetação nativa em 994 hectares, destinando 500 hectares à agricultura e 494 à
pecuária.
Comprovam também que o pedido foi indeferido em 2024, que a
Filadélfia Nature recorreu e que o processo foi desarquivado em abril de 2025.
Os documentos localizados pela reportagem não
mostram que a supressão tenha sido executada.
Também não foi localizada, nas bases públicas consultadas,
uma autorização posterior para os mesmos 994 hectares.
Outro lado
A Fórum procurou a Filadélfia Nature e
Augusto Cury.
A empresa foi questionada se continua proprietária da
Fazenda Santa Maria da Vereda, qual era a finalidade econômica da abertura dos
994 hectares, se houve nova licença ou autorização após o desarquivamento e se
alguma supressão de vegetação chegou a ser realizada na área.
Cury foi questionado sobre sua participação na empresa, a
finalidade do empreendimento e a situação atual do processo ambiental.
Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O
espaço segue aberto para manifestação.