Em entrevista exclusiva ao 247, o governador de
Sergipe, Marcelo Déda, do PT, garante que não há dúvidas no partido em relação
a quem se candidatará em 2014. "Na política brasileira, a relação entre
sucessor e sucedido é marcada pela crise, mas, com Lula e Dilma, é
diferente". Ele também aposta que Eduardo Campos, do PSB, não se arriscará
em 2014. "Ele faz parte do nosso projeto". Déda aproveitou para
mandar recados à oposição. "É muito preocupante quando, em vez de procurar
a tribuna, um opositor procura o juiz". Entrevista marca o início do
Sergipe 247; confira.
Valter Lima, do Sergipe via 247, e Leonardo Attuch - Uma semana
atrás, na pequena cidade de Indiaroba, em Sergipe, o governador Marcelo Déda,
do Partido dos Trabalhadores, praticamente lançou a presidente Dilma Rousseff à
reeleição num discurso pontuado com citações a Camões. Déda lembrou da figura
do Velho do Restelo, que previa que as navegações portuguesas rumo às Índias
não dariam certo, fazendo uma comparação com os que contestam a nova política
para o setor energético. Hoje, ele é um dos integrantes do PT mais próximos ao
ex-presidente Lula e também à presidente Dilma. E garante que não há dúvidas
sobre a sucessão em 2014. "Do ponto de vista das condições objetivas, e
também subjetivas, não dá outra hipótese para o PT que não Dilma", disse
ele. Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida
ao 247, que, nesta quarta-feira, lança oficialmente o Sergipe 247, mais um
braço da nossa rede:
247 - Há uma semana, o senhor participou de um evento que foi
praticamente um lançamento da candidatura da presidente Dilma Rousseff à
reeleição em 2014. No PT, essa questão está resolvida ou ainda há a
possibilidade de que o ex-presidente Lula volte?
Marcelo Déda - Do ponto de vista das condições objetivas, e também
subjetivas, não dá outra hipótese para o PT que não Dilma. Só que há algo que
deixa nossos opositores muitos confusos. A matriz da relação política no Brasil
entre sucessor e sucedido é a crise. Entre Itamar Franco e Fernando
Henrique Cardoso houve crise. Um brigando publicamente com o outro, disputando
o DNA do Plano Real. Nos governos e nas prefeituras é a mesma coisa. Mas Dilma
e Lula são diferentes. A matriz da relação é a lealdade e nós, brasileiros, não
estávamos acostumados com isso. Outro aspecto novo é a relação de permanente
diálogo, o que deveria ser encarado com naturalidade, mas ainda surpreende
muita gente. Essa relação, em vez de se transformar em foco de crise, virou um
ativo político.
247 - Mas há quem enxergue uma tutela do ex-presidente Lula
sobre a presidente Dilma e também em outros casos, como na prefeitura de São
Paulo.
Déda - Seria uma prova de demência que um prefeito, um
governador ou um presidente da República tendo nos quadros do seu partido uma
liderança política, e popular, como o ex-presidente Lula, que tem um legado tão
grande, deixasse de conversar por vaidade ou por medo de que isso fosse
percebido como tutela. Em relação à presidenta Dilma, a cada dia que passa, mais
eu me surpreendo com seus valores e com sua qualidade. Dialogar com um
antecessor é um fenômeno que, por exemplo, a democracia reserva com muito
carinho. Eles são uma reserva de experiência, sobretudo em momentos de crise. É
um diálogo rico. Hoje, vivemos uma crise internacional, que tem como foco a
Europa, e o ex-presidente Lula enfrentou algo semelhante em 2008 e 2009, que
teve como foco os Estados Unidos. O diálogo entre os dois serve ao Brasil. Além
disso, do ponto de vista político, Dilma é PT, Lula é PT e foi Lula quem lançou
Dilma.
247 - Mas isso confunde os adversários, que não sabem se
atacam ele ou ela.
Déda - É que o óbvio sempre confunde. No Brasil, a exceção é
que era a regra. Por exemplo: Itamar ter eleito Fernando Henrique e Fernando
Henrique ter tomado de seu governo o grande feito que foi o Plano Real. Dilma
não contesta a herança de Lula. Ao contrário, ela valoriza essa herança e a
aprofunda, construindo sua agenda própria de mudanças, com novas políticas,
como na energia, nos juros e em vários outros campos. Dilma reafirma que o
legado de Lula é parte de sua experiência governamental, mas tem inova não apenas
com outras políticas públicas, mas também com seu estilo e com sua capacidade
de ser leal ao PT, ao ex-presidente e à sua coligação, sem abrir mão da sua
singularidade.
247 - É que lealdade, na política, não é algo comum.
Déda - Sim. Aliás, se você notar grande parte dos editoriais da
mídia ao longo do ano passado, há um desapontamento com o não rompimento e com
a reafirmação permanente dessa lealdade.
247 - Com Dilma e Lula trabalhando juntos, Eduardo Campos
terá espaço para se lançar candidato pelo PSB?
Déda - O movimento que Eduardo Campos e o PSB têm feito é um
movimento previsível em qualquer cena política. É como aquele sujeito que
passou o ano inteiro na academia levantando ferro. Aí chega o verão. Ele não
vai sair para a praia com uma camisa de manga comprida. Ele vai exibir os
músculos para mostrar o resultado do seu esforço. O PSB cresceu e, em
consequência disso, Eduardo se fortaleceu. É natural e legítimo que eles exibam
os músculos e digam à presidenta Dilma, ao PT e aos aliados que querem ter mais
influência. Eduardo tentar ser candidato é legítimo. O PSB lançou Ciro e isso
não impediu que a aliança do PSB com o PT fosse uma das mais consolidadas no
nosso bloco. Mas será que o momento do Eduardo é 2014? Não sei.
247 - E o PMDB? As vitórias de Renan Calheiros e Henrique
Alves foram boas para o projeto Dilma ou o PT fortaleceu em excesso um aliado
que tem a reputação de cobrar caro demais pelo apoio?
Déda - O peso do PMDB é menos decorrente das eleições dos
últimos dias do que da singularidade da política brasileira, que reservou um
papel de centro móvel para o PMDB. O que há de novo no peso que o PMDB exerce
no equilíbrio político brasileiro? Nada. Desde o governo Itamar, eles têm um
papel indispensável na construção da governabilidade desse nosso
presidencialismo de coalizão, porque abriram mão da ambição de poder, entendida
como desejo de eleger um presidente da República, que é inerente a qualquer
partido político. É indispensável para qualquer presidente, seja ele Fernando
Henrique, Lula ou Dilma que se sente para discutir com o PMDB a construção de
uma maioria no Congresso.
247 - Mas não ficaram fortes demais?
Déda - Há problemas? Há. Eu, por exemplo, não sou simpático a
uma situação em que um mesmo partido controle as duas casas no Congresso. O
ideal seria a possibilidade de se permitir um funcionamento mais plural do
Congresso e da própria base do governo. Mas essa é a realidade e qual seria a
opção? Colocar o PMDB na ilegalidade? Fechar o Congresso?
247 - Na sua opinião, a indignação de alguns meios de
comunicação com as escolhas de Renan e Henrique é sincera?
Déda - Eu diria que é uma indignação de alfaiate, cortada sob
medida. Nunca vi essa indignação, por exemplo, quando Renan foi ministro da
Justiça de Fernando Henrique. Quando fui parlamentar, vi situações similares.
Não é necessário concordar com os estilos políticos do Renan e do Henrique, mas
é preciso compreender que se consolidou uma maioria no Congresso e essa maioria
produziu aquele resultado. A alternativa a isso é dramática. É caminhar num
sentido de dispensar o Congresso Nacional. A democracia brasileira não é a mais
perfeita do mundo, tem suas contradições, graves contradições, mas ela, com seu
singular presidencialismo de coalizão, garantiu 25 anos de estabilidade, com institucionalidade
plena e liberdade de imprensa. Com todos os defeitos que Câmara e Senado possam
ter, essas duas casas foram o esteio da democracia. E isso não é pouco não.
247 - Há uma tentativa de desmoralizar o Congresso?
Déda - O que mais incomoda a oposição e parte da mídia no Brasil é
que Lula recusou o destino e o figurino do caudilho. É isso que afasta o Brasil
do chavismo, por maiores que sejam os avanços que Chávez promoveu na Venezuela.
Lula é um líder singular no Brasil e no mundo. Um dos grandes insights de
sindicalista, que Lula traz até hoje, de um homem destinado a transformar um
país, é que ele não pode estar nem dois passos à frente do povo nem dois passos
atrás dele. Tem que estar numa velocidade tal que sua ação influencie, mas não
maniete e não paralise.
Lula entendeu a necessidade de construir um partido e
de consolidar uma organização partidária com democracia interna. Depois
compreendeu, mais adiante, a necessidade de construir alianças. E entendeu que
os limites do PT não eram suficientes para governar a nação brasileira. Um
único elemento que tornaria sua volta possível, que a meu ver está distante,
seria um fator de conjuntura. Uma mudança na realidade política tal que Dilma
não tivesse condições objetivas de ser candidata. Mas Dilma, que já é a cara da
gestão, tem demonstrado uma enorme capacidade política de conduzir o governo e
de manter-se como a melhor candidata para o Lula, para o PT, para o PMDB, para
o Gilberto Kassab e mesmo para o Eduardo Campos.
247 - Até para o Eduardo Campos?
Déda - Sim e digo isso com todas as letras. Eduardo terá mais
futuro na política brasileira, quanto maior o sucesso desse projeto que Lula e
Dilma têm liderado. Por isso que eu não vejo Eduardo construindo uma aliança
com outras forças. O nordestino usa uma expressão que Luiz Gonzaga eternizou
que é o matulão. Uma mala amarrada de cordão. Quando o nordestino migrava, ele
tinha pouco a levar do ponto de vista material e tudo cabia no matulão – as
roupas, o dinheirinho e os retratos dos parentes mais queridos. Deixar o
matulão era inviabilizar a volta. Eduardo é parte do nosso projeto e é também
nordestino como eu. E não vai deixar o matulão que construiu com Lula e Dilma.
Mas isso é uma avaliação. Não é uma sentença. Ele é um homem corajoso e
presidência, como dizia o velho Tancredo Neves, é destino.
247 - O governador Jaques Wagner, da Bahia, já disse que ele
poderá ser o candidato da coalizão em 2018.
Déda - Eu compartilho dessa posição. E a forma que nós, do
Partido dos Trabalhadores, temos que pensar em 2018 deve ser muito mais
generosa do que simplesmente se manter no poder pelo maior espaço de tempo.
Eduardo, certamente, é uma das hipóteses. O que não pode acontecer é o PT
exigir fidelidade eterna do PSB nem o PSB pedir que o PT descarte, de imediato,
uma alternativa própria em 2018. A construção do projeto se dá ao longo da
caminhada.
247 - O PSDB ainda é, na sua visão, uma alternativa de poder
para o Brasil?
Déda - O PSDB teve um papel histórico importante que foi a
construção da estabilidade, com o Plano Real. Mas, depois disso, eles se
colocaram num beco tão estreito, que não representam nem mais a burguesia
industrial. Falam apenas com o mundo das finanças. Seria bom para o País que
tivéssemos um PSDB que colaborasse mais com o debate público. Eles se perderam
na agenda neoliberal. Tanto é que são capazes de combater a redução das tarifas
de energia, que é um elemento essencial de redução do Custo Brasil.
247 - Como o senhor avalia o quadro atual de judicialização
da política?
Déda - O que mais me preocupa no Brasil de hoje é ver um
opositor deixar de procurar a tribuna e procurar um juiz. O grande mal da
judicialização da política brasileira é que seus defensores fortalecem um
pensamento atávico no Brasil: o de que a política e os políticos são dispensáveis.
Ao conduzir todas as suas demandas para o Judiciário e para o Ministério
Público, a oposição brasileira e grande parte da mídia promovem um movimento
que ameaça a democracia.
247 - Golpismo?
Déda - Eu sou muito cauteloso em identificar nos movimentos da
política brasileira uma vocação golpista. Agora, que me assusta a forma como
políticos tentam, pela via da judicialização, reduzir a referência política do
Partido dos Trabalhadores ou a imagem do presidente Lula, assusta. É um
movimento que, ao fim e ao cabo, transformará nossa oposição em refém, cada vez
mais, das suas próprias paranoias. Primeiro, a imprensa substituiu a oposição.
Agora, o Judiciário e o Ministério Público cumprem esse papel. E esse não é um
bom movimento.
Confira aqui os trechos
em que o governador Marcelo Déda fala sobre a disputa política sergipana. Postado por Marcos Imperial.
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Marcos Imperial