
MÍDIA
GOLPISTA,
"O analfabeto midiático é tão burro que se
orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal
Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada
notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como
cada uma delas vai se pronunciar.
Não desconfia que, em muitas TVs, revistas e jornais,
a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão
confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o 'dono da voz'
(obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos."
"O analfabeto midiático gosta de criticar os
políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão
necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo
o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o
dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de
uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público."
O analfabeto midiático
Celso Vicenzi*
Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o
que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a
política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para
justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta
os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na
internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende
bandeiras políticas.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões
políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito
influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de
jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que
também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na
contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis.
Avanços significativos são desprezados e pequenos
deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é
desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os
lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados
partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade
social no país.
Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma
distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o
noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã
Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum
editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas
semanas após matéria de capa da revista IstoÉ, denunciando o esquema de
superfaturar trens e metrôs em 30%.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e
estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu
na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se
escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai
se pronunciar.
Não desconfia que, em muitas TVs, revistas e jornais,
a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão
confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz”
(obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.
Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e
imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples
(Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “Então diga isto com uma imagem”).
Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar.
Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”.
Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para
provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram
encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia
norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com
milhares de inocentes mortos foi deflagrada.
O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode
ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se
outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro
ponto de vista.
O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser
compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na
sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica –
para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender
minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e
ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação
comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos.
Lê pouquíssimo, geralmente best-sellers e
livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e
corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o
político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e
multinacionais.
O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos
corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários
para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio
financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do
Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que
se especializou em roubar o dinheiro público.
Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político
corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande
capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para
adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as
populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.
Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma
última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais
trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece
habitual. * Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de
Santa Catarina. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Postado por Marcos
Imperial, via Vermelho
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