segunda-feira, 27 de abril de 2015

O que você pensa de mim pode ser tudo verdade


Eberth Vêncio, Revista Bula.

"Não foi Cristo nem ninguém quem disse “Vinde a mim os sem noção, pois deles é o Reino dos Céus”. Ora, isso simplesmente não faz o menor sentido. Aliás, muita gente diz nada com nada, escreve coisa com coisa, e ainda se julga uma sumidade, a última sílaba de uma Academia de Letras. Quem pensou aquela esdrúxula frase messiânica foi ela, uma beldade de se interromper necropsias, uma devota do dragão que afugentou São Jorge, um monumento ao entretenimento, uma morena indefectível de destravar o trânsito — considerando que essa onda de congestionamentos anda um horror — , uma mulher que, de tão linda, estorvava desde batizados até velórios, desde bodas-de-prata até descerramentos de placas, desde discursos inflamados nos púlpitos até partos em banheiras de hospitais públicos, e que assistia fascinada ao namorado — um colecionador de olhos — acrescer às compotas de formol outra leva de glóbulos oculares com os mais variados matizes: íris azul-turquesa, íris cor de mel, íris verde-oliva, e as enigmáticas íris cor de fumaça ou de burro quando foge.

E por falar em fuga, os visgos de seus olhares cruzaram-se numa noite capital, quando ela recuara do parapeito de um viaduto, resoluta — sabe-se lá por que cargas d’água — em não mais mergulhar no breu sobre o enxame de automóveisque infestavam a via expressa. “Até breve, mundo cruel. Respira fundo e pula comigo, garota…”, ele teria dito, num inusitado, divertido e elegante xaveco, convidando-a para darem um pulinho na zona boêmia e beberem cerveja com degenerados de carteirinha, uma matilha carismática de bebuns que faziam rir e chorar sempre que se esbaldavam num decadente boteco abaixo de qualquer certeza.

Enquanto se apaixonava pelo hilário sujeito, a moça pensou o quanto seria mais justo e razoável que as pessoas bem humoradas pagassem menos impostos, e que fossem recebidas no céu por uma banda de arcanjos tocando pífaros, por tornarem as vidas dos outros mais leves e menos miseráveis. Era o caso daquele desconhecido que parecia conhecer os seus labirintos interiores como ninguém.

Comê-la foi uma questão de templo: ajoelhou para não rezar. Após secarem com devoção uma ninhada inteira de cervejas pilsen, foram parar no estúdio onde o moço morava. Afrodite se quiserem: além de redescobrir a paixão, a morena-de-dar-em-doido ficou sabendo que o rapaz ganhava a vida em prol de causas perdidas, quais fossem: número um, conquistar o mundo fazendo literatura — o vate escrevia com a habilidade de quem disseca veias nos miolos de um bebê — ; número dois, fazer justiça com as próprias mãos.

Toda essa história pode parecer louca, inverossímil demais, eu sei, inclusive para mim, um escritor mediano e esforçado, guiado pelas faíscas de surtos criativos difíceis de explicar à luz do dia. Ocorre que o afeto nasce feito fátuo feto, após germinar durante meses ou frações de segundos. São coisas que acontecem. Ora, quem nunca ouviu falar em amor à primeira vista, ou em frustação a se perder de vista?

A primeira impressão que a bilíngue de genitália ambígua teve a seu respeito — foi isso mesmo que vocês leram: a moça simplesmente nascera carregando no baixo ventre um raríssimo playground genital composto de ferramentas dúbias, a chave e a fechadura, se é que me entendem — era que ele não passava de uma espécie de psicopata-com-patas, uma besta-fera com faro de sangue, um demônio de plantão que a ludibriara, que a seduzira naquela lamentável noite sem luar, ocasião em que desistira do projeto de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego”. Teve medo, mas, depois, teve também paciência para escutar como funcionava o modus operandi do colecionador de olhos.

Não se tratava de matar quem quer que fosse, ele explicou, enquanto massageava os seus pés e o seu ego. O objetivo era deixar uma marca indelével na cara dos inimigos da sociedade: homens e mulheres corruptos, crápulas de todos os sexos que dilapidavam o erário, um defeito vigente desde que caravelas europeias por aqui aportaram para saquear riquezas e foder com as índias. Todo mundo já sabia: aquela onda de roubar dinheiro público até secar o bagaço já estava dando nos nervos, ao ponto de escritores surtarem e das matilhas de néscios exigirem que torturadores aposentados fossem reconduzidos dos porões do esquecimento para o ofício de moer carne humana em prol da pátria.

O bacana daquele aberrante e secreto ofício consistia em atrair corruptos acenando com dinheiro para eles, como se fosse alfafa ou carniça, dopá-los com extratos de santo-daime com data de validade vencida, e arrancar-lhes um dos olhos utilizando tão somente uma calçadeira de sapatos feita com aço inoxidável — o sangue, todo mundo sabe, contém ferro e, portanto, o ferro inexorável enferrujaria o instrumento de biópsia — ou uma daquelas conchas largamente utilizadas para servir sorvete.

O gato tinha visão de negócio, ela pensou, ao suspirar repleta de admiração. Não era por acaso que a incidência de caolhos-de-colarinhos-brancos crescia vertiginosamente nos últimos tempos. Tamanha a demanda, já estavam trazendo tapa-olhos Made in Taiwan. Beijou longamente o colecionador de olhos.

 Teve uma ereção vigorosa, encharcou a rudimentar vagina, tudo isso ao mesmo tempo, junto e misturado. Só não transou consigo mesmo porque, além de não ser mais triste e egoísta, estava profundamente apaixonada pelo colecionador de olhos. É como não diz o novo ditado: em terra de cegos quem tem um olho só é tachado de louco."

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Marcos Imperial

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