sábado, 9 de outubro de 2010

Entre Deus e o DEMO: pela expressão da liberdade

Sebastião Faustino Pereira Filho;
 
Ao curso dos meus curtos 37 anos, depois das eleições de 1989, entre Collor e Lula, não me lembro de ter ficado tão indignado com alguma situação como a que vivencio agora, no pleito eleitoral deste ano, com a revoltante cobertura e cinismo de algumas empresas de comunicação no Brasil e seus institutos de pesquisa, além da fábrica de boatos da direita.

O que o PSDB e DEM(O) não aceitam é a libertação da senzala que os senhores da casa grande dominaram por cinco séculos matando a míngua e arrastando suas míseras vidas com cestas básicas e sobras do que descartavam. O que a direita brasileira e uma elite medíocre serviente com espírito escravocrata não conseguem engolir, é que a bolsa família mudou a direção dos escravos sociais, em vez de se dirigir as casas grandes, eles hoje se dirigem ao posto dos Correios ou ao banco mais próximo com um singelo cartão magnético e compram a comida que os dignificam e outros bens mínimos.

A bolsa não apenas deu poder de compra aos pobres e miseráveis, mais diminuiu as amarras e o voto do cabresto tido como certo pelos pequenos escravistas paroquianos, especialmente no interior do Nordeste. Políticos esses partidários e representantes das elites locais e das agremiações políticas que nessa eleição teve muitos de seus caciques enterrados de vez do mundo da política.

Essa feliz realidade levou ao desespero tanto a elite nacional quanto os partidos que a representa, e isso tem um motivo óbvio: a sua extinção ou inanição de uma perspectiva do poder. Como sempre, no desespero vale qualquer coisa, assim como todo cinema decadente recorre as exibições de filmes pornográficos, PSDB e DEM apelam para Deus e o diabo ao mesmo tempo para atingir seus objetivos, recorrendo as táticas mais mesquinhas e imorais.

Disseminam mentiras e alimentam o medo, especialmente em uma parte da população que pelos poucos ou total ausência de recursos educacionais, ficam reféns de suas limitações, da má formação política e pior ainda, da escravidão do espírito alimentada por pseudo-religiosos que estão mais preocupados com as contribuições financeiras para suas igrejas do que com o ensinamento e convivência humana conforme os preceitos de uma filosofia religiosa. Seu objetivo, em muitos casos, resume-se apenas ao dízimo. Para eles a pessoa não passa de um fiel, fiel depositário e que vai garantir o crescimento financeiro da igreja e do padrão de vida de seus representantes, graças à miséria de muitos. Alguma semelhança com a política praticada pela elite brasileira não é mera coincidência, é a mais pura verdade.

Não resta mais dúvida porque determinadas pessoas vem espalhando o terror nos templos religiosos, amedrontando alguns seguidores de boa-fé e pouca instrução. Um dos principais avanços que o Ocidente deu no campo da política foi ter libertado o Estado da Igreja Católica, distinguindo o que era questão de estado de propósitos religiosos. Com famigeradas experiências da inquisição saímos daquele mal com árduas lembranças. Não podemos permitir que depois de séculos deixemos que a religião interfira na política e como vem ocorrendo nessas eleições, querendo reassumir o lugar do Estado. É preciso saber diferenciar o que é de interesse da maioria e que está em conformidade com os preceitos constitucionais, do que é de vontade das representações religiosas.

Não podemos permitir que direitos constitucionais assegurados sejam suprimidos pelos simples desejos de líderes religiosos e assuntos que merecem a discussão pública se esvaiam pelo medo de rejeição de pessoas de igreja A ou B.

O aborto deve ser discutido sim! E ele não é só uma questão de saúde pública, não. É questão de educação. Nunca a sociedade teve tanta informação sobre métodos contraceptivos e dos próprios medicamentos (pílulas, injtáveis, DIU, preservativo etc.), inclusive distribuídos gratuitamente nos postos de saúde e com preço acessível nas farmácias populares. Não há mais desculpas para esse problema. Tem a prevenção, mas não conseguiu evitar a gravidez, vá trabalhar e arcar com a responsabilidade fruto de um “descuido” ou irresponsabilidade, ou em alguns casos pela própria ausência do Estado, em pensar uma política racional saúde-educativa. Cada um que arque com suas despensas, mas abortar, só conforme a lei.

Isso sim deve ser discutido, sem medo nem preconceito. É importante, agora sim, chamar as igrejas, escolas, pais, meios de comunicação, Estado para juntos pensarem as suas responsabilidades nesse problema. Por outro lado, não podemos esquecer-nos dos casos especiais de estupro, abuso etc. Nesses eventos o trabalho conjunto do Estado, família e a igreja é de extrema importância para reconstituição psicológica ou amenizar o trauma das vítimas.

Estão acusando Dilma de defender o aborto. É salutar fazer uma diferença. Uma pessoa não pode ser vista como criminosa por emitir sua opinião favorável a uma coisa. É criminoso quem comete o crime e não aquele que em certa situação em que o aborto é jurídica e legalmente previsto em lei, concorda com esse ponto de vista. Vale lembrar, pelo que sabemos, a Dilma não fez nenhum aborto, nela nem em outra mulher. Chega de falácia, de apelação.

Outro fato que nos preocupa, emergido da deslealdade da oposição nas eleições, diz respeito à relação da crença em Deus dos candidatos. Em 1989 a candidatura de Collor espalhou pelos quatro ventos que Lula era o anticristo, o diabo barbudo, levaram ao programa eleitoral a mãe de uma filha do Presidente, lendo um texto escrito por Zélia Cardoso de Mello, afirmando que Lula tinha obrigado ela a fazer um aborto, e que esta havia recusado e por isso tinha sido hostilizada pelo candidato à presidência, na época.

Mais uma vez a direita usa o mesmo artifício contra Dilma. Que falta de inteligência, logo eles com tantos doutores em seus quadros, utilizarem desses expedientes contra uma massa de “ignorantes”, de “Zé povinho”, como a elite ignara brasileira enxerga o PT e a maioria da esquerda no país e principalmente do eleitorado de Dilma e Lula. É deprimente tanta falta de ética associada à mediocridade do desespero.

O Artigo 5º da Constituição Federal é claro ao afirmar no Inciso IV “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Bem, se eu escondo o que penso estou deixando de exercer um direito e impedindo que os outros saibam como eu penso. Não posso ser condenado em afirmar algo que acredito como verdade e o meu falar não fere o direito do outro. Quando alguém no Brasil diz que é ateu é condenado até a última geração. Mas como um sujeito pode saber se Deus existe ou não? Por que não se pode duvidar da sua existência? Quando censura uma pessoa de pensar diferente estão tirando dela o direito de crença que pode ser igual a tantas outras, mas que por medo, não assumem seu posicionamento. Seria então mais conveniente recorrer a uma mentira e fazer média com os demais ou ter coragem para falar o que pensa? Negar o que realmente é sua intenção é um ato de covardia e de oportunismo, de conveniência. É agir conforme a ocasião para agradar seus pares, eleitores etc.

Chega de hipocrisia! É este o mesmo argumento que usamos no Brasil para dizer que não somos preconceituosos, que mentira facínora. Chega de nos escondermos nos jeitinhos, na malevolência, na malandragem. Paremos de ser fingidos e encaremos a realidade. Como disse Machado de Assis “entre a fantasia e a realidade, prefiro à última porque pelos menos, ela tem o poder de existir”.

Pior do que dizer que não acredita em Deus é mentir afirmando uma fé virtual e oportunista. Deus é uma questão de crença, a fé é para poucos. Como o próprio Cristo enfatizou aos seus discípulos especialmente Tomé (João, 20, 25): “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. Antes Tomé havia afirmado: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas mãos, e não meter a mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei”. Ora, se ele que viveu com Cristo e para muitos estudiosos pode ter sido seu filho, só acreditou que Jesus era o filho de Deus após vê-lo ressuscitado, imagina os outros reles mortais. Não podemos permitir a hipocrisia que indigna e a desculpa de um pecado que escraviza.

Afinal, da mesma forma que é assegurado o direito constitucional no mesmo Artigo 5º, inciso IV, que assevera “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”; assim também se garante no inciso VIII, do referido Artigo que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”. Ou seja, será que o ateísmo não é uma “convicção filosófica”? E onde fica o direito à igualdade perante a lei? Configura-se dessa maneira, mas um ataque contra o Estado de Direito e da liberdade de expressão.

Estes escritos não têm como intenção atacar a fé, religião, a crença de ninguém. Simplesmente têm como objetivo garantir o meu direito de expressão, que não me acovardo, nem me escondo atrás de falsas impressões ou idéias para agradar a todos. Não devemos ser aparência, devemos ter essência, decência. Viva a liberdade de pensar, de se expressar, de poder escolher por opções, jamais por imposições. Viva o Brasil que não é mais aquele país do futuro. Viva o Brasil país que é do presente.

Finalmente se a máxima cristã estiver certa “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Marcos, 10:25), parte da elite brasileira deve está temendo o inferno já aqui na Terra.

*Sebastião Faustino Pereira Filho é professor do Curso de Comunicação Social da UFRN, Doutor em Educação. Autor de Homo Midas e o político mitiático na folia do rei nu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá queridos leitores, bem vindo a pagina do Blog Imperial. Seu comentário é de extrema importância para nosso crescimento.

Marcos Imperial

Leia também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...