
No dia 16 de janeiro de 1970, uma jovem mineira de apenas 22 anos passou a conhecer o inferno dos porões da ditadura militar.
Dilma Rousseff sentiu no próprio corpo,
durante inúmeras sessões de tortura, até que ponto um regime de exceção é capaz
de chegar para massacrar uma pessoa. Foram dois anos e dez meses de sofrimento,
violência e solidão em presídios de São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora.
Então secretária de governo no Rio
Grande do Sul, Dilma prestou em 2001 um longo depoimento para integrantes do
Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG).
É o relato vivo, real e doloroso sobre
o que ela sofreu nos presídios, sobretudo quando foi mandada à cidade de Juiz
de Fora (MG) para ser interrogada. Ao todo, Dilma ficou presa nove meses a mais
do que previa a sentença estipulada pela Justiça Militar.
Onze anos depois do depoimento e já no
cargo de Presidente da República, Dilma foi a responsável pela implantação da
Comissão Nacional da Verdade, que está colhendo relatos de quem sobreviveu e investigando
casos de violação dos diretos humanos no período da ditadura (1964-1985).
Nos textos abaixo, estão trechos do
depoimento dela à Conedh-MG em que relata como uma pessoa tão jovem foi
obrigada a ver a morte de tão perto e a enfrentar o medo e a solidão.
Marcas da Tortura
“Acredito hoje ter sido por isso que fui levada no
dia 18 de maio de 1970 para Minas Gerais, especificamente para Juiz de Fora,
sob a alegação de que ia prestar esclarecimentos no processo que ocorria na 4ª
CJM. Mas, depois do depoimento, eu fui levada (ou melhor, teria de ser levada
para São Paulo), mas fui colocada num local (encapuzada) que sobre ele tinha
várias suposições: ou era uma instalação do Exército ou Delegacia de Polícia.
Mas acho que não era do Exército, pois depois estive no QG do Exército e não
era lá.”
“Nesse lugar fiquei sendo interrogada
sistematicamente. Não era sobretudo sobre minha militância em Minas. Supuseram
que, tendo apreendido documentos do Ângelo [Pezzutti, militante do grupo de
Dilma] que integram o processo, achavam que nossa organização tinha contatos
com as polícias Militar ou Civil mineiras que possibilitassem fugas de presos.
Acredito ter sido por isso que a tortura foi muito intensa, pois não era presa
recente; não tinha ‘pontos’ e ‘aparelhos’ para entregar.”
“As marcas da tortura sou eu. Fazem
parte de mim.”
Dente Podre
“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é
que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban
[Operação Bandeirantes, em São Paulo]. Minha arcada [dentária] girou para o
lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me
deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu. Tomava de vez em quando
Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para São
Paulo, o Albernaz completou o serviço com um soco, arrancando o dente.”
Pau de Arara
“No início, não tinha rotina [nas sessões de
tortura]. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava.
Geralmente, o básico era choque. Começava assim: ‘Em 1968 o que você estava
fazendo?’, e acabava no Ângelo Pezzuti e sua fuga, ganhando intensidade, com
sessões de pau de arara, o que a gente não aguenta muito tempo.”
Palmatória
“Se o interrogatório é de longa duração, com
interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois
leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes
também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em São Paulo usaram
pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina.
No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me
alimentava direito.
Motivos
“Quando eu tinha hemorragia, na primeira vez foi na
Oban (…) foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não
bater naquele dia. Em Minas, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém
que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois
paravam. Acho que tem registros disso no final da minha prisão, pois fiz um
tratamento no Hospital das Clínicas.”
Morte e solidão
“Fiquei presa três anos. O estresse é feroz,
inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte
e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca
a gente o resto da vida.”
Visita da mãe
“Em Minas, estava sozinha. Não via gente. [A
solidão] era parte integrante da tortura. Mas a minha mãe me visitava às vezes,
porém, não nos piores momentos. Minha mãe sabia que estava presa, mas eles não
a deixavam me ver. Mas a doutora Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada, me viu
em São Paulo, logo após a minha chegada de Minas. Hoje ela mora no Rio e posso
contatá-la”
Ameaças
“Depois [vinham] as ameaças: ‘Eu vou esquecer a mão
em você. Você vai ficar deformada e ninguém vai te querer. Ninguém vai saber
que você está aqui. Você vai virar um ‘presunto’ e ninguém vai saber’. Em São
Paulo me ameaçaram de fuzilamento e fizeram a encenação. Em Minas não lembro,
pois os lugares se confundem um pouco.”
Sequelas
“Acho que nenhum de nós consegue explicar a
sequela: a gente sempre vai ser diferente. No caso específico da época, acho
que ajudou o fato de sermos mais novos; agora, ser mais novo tem uma
desvantagem: o impacto é muito grande. Mesmo que a gente consiga suportar a
vida melhor quando se é jovem, fisicamente, a médio prazo, o efeito na gente é
maior por sermos mais jovens. Quando se tem 20 anos o efeito é mais profundo,
no entanto, é mais fácil aguentar no imediato.”
Sozinha na cela
“Dentro da Barão de Mesquita (RJ), ninguém via
ninguém. Havia um buraquinho na porta, por onde se acendia cigarro. Na Oban, as
mulheres ficavam junto às celas de tortura. Em Minas sempre ficava sozinha,
exceto quando fui a julgamento, quando fiquei com a Terezinha. Na ida e na
vinda todas as mulheres presas no Tiradentes sabiam que eu estava presa: por
exemplo, Maria Celeste Martins e Idoina de Souza Rangel, de São Paulo.”
Bomba
“Em Minas, fiquei só com a Terezinha. Uma bomba foi
jogada na nossa cela. Voltei em janeiro de 1972 para Juiz de Fora. Nunca me
levaram para BH [Belo Horizonte]. Quando voltei para o julgamento, me colocaram
numa cela, na 4ª Cia. de Polícia do Exército, 4ª Região Militar, lá apareceu
outra vez o Dops que me interrogava. Mas foi um interrogatório bem mais leve.
Fiquei esperando o julgamento lá dentro.”
Frio de cão
“Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Um
frio de cão. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogênio, pois estavam
treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas e fomos para o
hospital. Tive o ‘prazer’ de conhecer o comandante general Sílvio Frota, que
posteriormente me colocaria na lista dos infiltrados no poder público, me
levando a perder o emprego.”
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Marcos Imperial